quinta-feira, 4 de março de 2010

Desabafos

O Leandro não aguentou mais e atirou-se ao Tua.

Este desistir da vida aos 12 anos perturba-me, atordoa-me, choca-me. Não só porque tenho dois filhos de 8 e 11 anos mas porque convivo de perto com esta faixa etária, todos os dias. Tenho uma relação de grande proximidade com os meus alunos, especialmente com os mais pequenitos dos 7ºs anos a quem, deste modo, tento facilitar a adaptação à "escola dos grandes", um meio inicialmente hostil. A minha relação com eles extravasa a sala de aula e estou (quase) sempre disponível para os ouvir quando, a mim, recorrem ou quando, pelo canto do olho, percebo que alguma coisa não está bem.

Este acontecimento em Mirandela faz-me questionar quantos outros destes gritos silenciosos escondem as escolas. Com quantos Leandros eu convivo sem me aperceber dos seus pedidos de socorro?

Como podem crescer as nossas crianças se, para alguns, a paz só é encontrada deste modo?

Esta situação incomoda-me e envergonha-me, até. Como podemos nós, todos nós, deixar passar estes casos sem os detectar, sem os referenciar, sem os prevenir, sem os solucionar?

Infelizmente tenho a triste sensação que o país perdeu a vergonha há muito…

4 Sementes:

Joana 12:28 da tarde  

Sabes o que me revolta mais no meio disto tudo, a familia do Leandro e de outros miudos vitima de bullying tinham avisado a escola da situacao.Nao foi um caso silencioso. Eu sei que isto e um fenomeno relativamente novo em Portugal, mas a indiferenca da instituicao escola perante isto e que e na minha o pior disto tudo

Cenoura 12:57 da tarde  

Não sei que te diga Joana. Não sei onde todos falhamos.
Só sei que nós fazemos uma série de participações à polícia, uma série de relatórios para a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens e resulta tudo... em nada.

Pequete 9:38 da tarde  

Também fiquei muito chocada com esta notícia. A única coisa que me parece, no meio de tudo isto, é que quanto maiores as escolas, mais impessoais se tornam. São espaços enormes, com centenas de alunos, dezenas de professores, torna-se impossível haver um ambiente de proximidade e de unidade e passa-se para o ambiente da fábrica (não queria dizer campo de concentração, porque é, obviamente, demasiado forte). Eu passei pelo ensino durante um período muito breve, mas ficou-me a ideia muito clara, que muitos problemas se resolveriam se se optasse por escolas pequenas e turmas pequenas. Mas imagino que isso não seja economicamente atraente, e como o dinheiro parece sobrepor-se a quase tudo, aqui temos o resultado.

Flor 2:47 da tarde  

É realmente chocante como é que um miúdo chega ao ponto de se suicidar.
A culpa é de muita gente e muitas instituições, mas os pais também deviam ter tirado o miúdo da escola. Mais não seja depois da entrada dele no hospital, isso foi o cúmulo da agressão física.
Ainda hoje vi um outro caso nas notícias. A mãe de uma miúda vítima de violência na escola fez queixa e disse que a miída não iria mais às aulas enquanto a escola não avançasse com uma investigação ao caso. Resposta da escola: se a miúda faltar às aulas, a senhora fica sem o rendimento mínimo. Resposta da mãe: prefiro ter a minha filha viva e de saúde do que mais uns trocos por mês.

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